segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Anticristo - Lars Von Trier


Atônito.
Foi assim que me senti ao final do filme do tal Lars Von Trier. Acontece que eu ainda não vi seus trabalhos anteriores como os tão aclamados "Dogville", "Dancer in the dark" e "Idioteme", o que é um erro de minha parte, confesso. Mas, digamos que apesar do pecado, comecei bem...

Antes de qualquer coisa vale ressaltar a devoção de Lars à Nietzsche (o que nos torna irmãos decadent's) e assim sendo, creio que o filme citado seja uma linda homenagem ao filósofo alemão.
Sem mais delongas, que se vá direto ao ponto: o filme, ou a sua essência teórica, talvez encontre bases no ensaio de Nietzsche, "Culpa, má consciência", do livro "Genealogia da Moral", e no livro "Anticristo".

(...)

O prólogo do filme (que é dividido em capítulos) sozinho talvez já mereça um Oscar pela direção fantástica, pela fotografia, pela colagem, pela música... enfim... é uma obra-prima...
Filmado em preto-e-branco, em câmera lenta, ao som magnífico de "Lascia Ch'io Pianga", de Händel, esse prólogo é de longe uma das coisas mais belas que já vi no Cinema, de maneira que assemelha-se à poesia, de tão apaixonante que soa.
Somos lançados à mais pesada (leia-se afável) cena de sexo de toda a história; em contraste com tais movimentos, a jovem criança a brincar, sem que assim fosse censurada pelos pais, já que ambos estão presos ao prazer sexual, incapazes de sequer ver o filho se debruçar na janela do apartamento, e assim adverti-lo. A tragédia pré-anunciada se concretiza, a criança cai do prédio e morre; assim o sexo fica associado à dor.

Os dois próximos capítulos servirão basicamente para trabalhar o luto do casal, "Ele" e "Ela" (os personagens não tem nomes).
Ela (Charlotte Gainsbourg, sem medo, numa atuação fantástica) acaba tendo sérios problemas para enfrentar o ocorrido, já Ele (Willem Dafoe), um psicoterapeuta, decide 'tratar' a mulher, o que segundo um conceito defendido por estudiosos da mente é um erro, já que não se deve 'analisar' alguém por que se tenha forte afeição.

O casal então parte para a floresta, mais especificamente para o Éden, local onde Ela sente-se insegura, frágil, com medo...Ele, então acredita que aí poderá 'curá-la', libertando-a de toda dor, toda ansiedade causada pela morte do filho. Tal Éden em muito se difere da concepção que todas as religiões monoteístas tem, uma vez que estas acreditam que tal lugar é a habitação primeira do Homem, o paraíso realizável...
Mas, acaso, não será o Éden de Von Trier o verdadeiro e único Éden?! Ora, pois o que serão a serpente e a maça senão o Caos imprimindo o desejo e a confusão no Homem? E o que é que a Raposa diz quando encontra-se com Ele? "O Caos reina!" (...)
Este é o ponto crucial, porque a partir da chegada do casal ao Éden é que os desejos mais demoníacos e intrínsecos na mulher começam a aparecer, transformando assim a personagem.
Von Trier nos questiona, nos convida a participar da película, fazendo com que tomemos atitudes severas com os personagens, para que em seguida - numa reviravolta - tais atitudes tornem-se insustentáveis, precipitadas, tolas.

É um filme desaconselhado para muita gente... tanto porque é um filme violento e que fere os conceitos éticos e morais de muitos, como porque tem cenas de sexo explícito, mutilação genital e muita, mas muita falta de pudor.
Mas é um filme lindo, acima de tudo.

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