
O que me aproximou de sua filosofia sempre foi - e não o escondo de ninguém - a forma veemente com a qual ele se empenhou contra a moral cristã, esta farsa de milênios.
E, além do mais, eu sempre admirei a sua forma zangada de escrever.
Ah! E que belos e poderosos são seus aforismos - que, segundo o próprio Nietzsche, é a habilidade de dizer em 10 frases o que os outros dizem num livro... o que os outros não dizem num livro!
(...)
Li e reli o tal Zaratustra umas três vezes, bem lentamente, analisando cada parágrafo, cada vírgula, cada sentença, verbo por verbo, substantivo por substantivo, etc, etc. E toda vez, ao cabo do livro, eu me sentia perdido, atônito. "Hã?", era a única coisa que eu conseguia dizer.
Mas, falando sério, que belo livro, que leitura maravilhosa! Talvez este seja o maior presente que a humanidade já recebeu.
E o que Nietzsche diz a respeito de seu Zaratustra? Melhor que o diga com suas próprias palavras:
"Ele está atirado sobre uma folha com a assinatura: 6.000 pés além do homem e do tempo" (Ecce Homo - de como a gente se torna o que a gente é, p.110)
"Aqui não fala um fanático, aqui não se 'prega', aqui não se exige fé: os ensinamentos caem de uma abundância inesgotável de luz e felicidade profunda, gota a gota, palavra por palavra - uma lentidão suava é a velocidade dessa conversa. Coisas desse tipo só logram ser alcançadas para os melhores dentre os eleitos; é um privilégio sem igual, poder ser um ouvinte aqui; não é a todos que é dado ter ouvidos para Zaratustra... E, com tudo isso, Zaratustra não é um desencaminhador?... Mas o que ele mesmo diz quando volta pela vez primeira para a sua solidão? Exatamente o contrário daquilo que um 'sábio', um 'santo', um 'salvador do mundo' ou outro décadent qualquer haveria de dizer em semelhante caso... Ele não apenas fala diferente, ele também é diferente...
- Eu vou sozinho, pois, meus discípulos! E também vós ireis embora sozinhos! É assim que eu quero e deve ser.
Afastai-vos de mim e defendei-vos contra Zaratustra! E, melhor ainda: senti vergonha dele! Talvez ele vos haja enganado.
O homem do conhecimento não tem apenas de amar seus inimigos, ele também tem de poder odiar seus amigos.
A gente retribui mal a um professor, quando permanece sendo sempre apenas seu aluno. E por que vós não haveríeis de querer arrancar os louros da minha coroa?
Vós me venerais: mas como, se vossa veneração um dia irá ao chão? Guardai-vos de não serdes abatidos por uma coluna!
Vós dizeis que acreditais em Zaratustra? Mas que importa isso a Zaratustra!? Vós sois meus crentes, mas que importam crentes!?
Vós ainda não haveís vos procurados: aí encontrastes a mim. É assim que fazem todos os crentes; e por isso valem pouco todas as crenças.
Agora eu vos ordeno: perder a mim para vos encontrardes; e apenas quando todos vós tiverdes me renegado, é que haverei de quer voltar a vós..." (Ecce Homo, p.19)
(...)
"Deus Todo-Poderoso, lamento ser agora um ateu, mas o Senhor leu Nietzsche? Ah, que livro!" - John Fante
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