
Violins é uma banda goiana que, na humlide opinião deste escritor, está entre as 3 melhores bandas nacionais pós Legião Urbana (a banda máxima em se falando de Brasil). Tem 4 albuns lançados, maravilhosos, diga-se de passagem; cada qual abordando uma temática diferente, prova cabal de que os seus integrantes procuram seguir por caminhos diversos à cada novo trabalho.
Hoje, especialmente, falarei do Album "Tribunal Surdo", que, penso eu, é o disco mais polêmico da banda. Um disco que fere pela sinceridade, pela forma com a qual trata a violência, a futilidade com a qual alguns dos nossos maiores absurdos são abordados.
(...)
A primeira faixa, "Delinquentes Belos", revela bastante do que está por vir: "Sim, cada um é um assassino sem coração. Esperando pra rir, dentro de um camburão, com sangues nas mãos." E, quando você pensa que já ouviu tudo, que não há mais nada de podre, eís que Beto (vocalista da Violins), encerra, apontando-nos o dedo: "Nós somos delinquentes belos em mundos possíveis. Nós somos imperadores sérios em quartos de hospícios. Nós somos assassinos ébrios em frente os seus filhos."
Ufa! Parece que acabou...
(...)A segunda música, "O anti-herói (parte I)", agride à qualquer um. Ela choca, principalmente, pela verdade que encerra, aquela verdade perigosa que, no fundo, nem sequer assumimos a nós mesmos, uma verdade quase que inconsciente. Segue-se um trecho: "Tranque a porta que eu já ouvi barulho lá fora, e pode ser que queiram roubar a minha moto nova, e queiram te violentar, mas isso nem importa..."
E, a parte que eu mais gosto, talvez o verso mais sincero que eu jamais tenha ouvido: "E de repente, eu pensei que puta morte bela se eu morrer, pra defender os bens que eu comprei à prazo e a prestação; e fingir que é teu meu coração, fingir morrer por nós..." Essa frase carrega em si um pouco dos ideias que a sociedade consumista nos impõe, pelo menos é assim que eu a interpreto.
(...)A terceira faixa, "Campeão Mundial de Bater Carteiras", como o próprio título já anuncia, é uma canção que foca o teor esportivo à que práticas, no mínimo condenáveis, estão sendo sujeitadas. O destaque, pelo menos de minha parte, fica no verso que engrandence os batedores de carteiras: "Glórias ao Campeão Mundial de bater carteiras!"
(...)A quarta música, "Grupo de Extermínio de Aberrações", é talvez a mais polêmica da banda. Alguns disseram que a letra era brilhante, enquanto crítica social e moral; outros, porém, a condenaram, estes certamente não entenderam a canção.
Bom, a letra fala por si só: "Atenção! Atenção! Prestem atenção ao que vamos dizer. Nós somos o Grupo de Extermínio de Aberrações..." Ou, a minha parte predileta: "E eu garanto que os seus filhos agradecem por crescer sem ter que conviver com bichas e michês, e pretos na tv, discípulos de Che, putas com HIV."
A canção fere, principalmente quando se é um discípulo assumido de Che; mas, como disse anteriormente, a letra é uma crítica ao que talvez seja nosso futuro, imagino eu.
(...)A quinta faixa, "Missão de paz na África", fala da alienação da juventude, ou da maioria dela, para não ser totalmente injusto. (...) O eu-lírico, apresenta-se muito despreocupado com a situação do 'amigo', que está indo para a África numa missão de paz.
"Quando você me falou que ía se alistar, pra lutar pelo bom, eu tava tonto num bar, e eu não pensei que você já falava mesmo em lutar. Você querendo morrer, e eu pensando em transar."
(...)A sexta música, "O anti-heroi (parte II)", fala abertamente, e de uma forma que dói nos ouvidos, sobre a violência machista. Na canção, nos é narrada uma briga entre um casal, em que no final, o sadomasoquista afirma: "E eu quero mais é te comer em paz, sem ouvir um gozo, sem ouvir 'socorro'!"
(...)Na sétima canção, "O interrogatório", entende-se (pelo menos no meu caso) que é uma letra que fala sobre a superficialidade das pessoas, das relações humanas, enfim... Como, se na verdade, nada do que dissemos fosse sincero, como se buscássemos, a todo instante, seguir em frente, fingindo que tudo está indo bem...
"Tudo bem? Quantas vezes você responde 'não'? E quantas vezes 'bem' pra continuar andando, sem dar explicação, e sair da prisão!"
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Na oitava faixa, "A lei seca", Beto volta a tratar a violência com desdém, transformando-a numa coisa trivial... "Quem você pensa que é pra pôr o dedo na minha cara assim? Pensa que só porque é mulher, eu não vou reagir?!"
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A nona música, "Solitária", embora tenha alguns riffs animados - lembrando bandas havaíanas, se distancia muito de qualquer tipo de canção feliz. Fala, basicamente sobre solidão, uma solidão quase que voluntária...
Bom, não postarei nenhum trecho porque, de verdade, não simpatizo muito com ela. Se sentires curiosidades, procurem no myspace, o link estará logo abaixo.
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A décima canção, "Piloto Russo na Aldeia Suskir", conta a história de um piloto das Forças Armandas Russas, que caiu - abatido por caças turcos - nesta tal Aldeia. E que para a sua surpresa torna-se um semi-deus, adorado por todos os habitantes. Detalhe: o nosso piloto é um sem-deus, um ateu; como o trecho a seguir nos indica: "Eu nem tenho um deus pra adorar, como foi que eu me tornei deus aqui? Me diz! Que contradição, não é algo que se explique de imediato. Quando dei por mim eu era um deus-suskir."
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A décima primeira faixa, "22", fala, penso eu, sobre a atitude de alguns em querer culpar à um deus por seus erros, suas falhas.
"É que eu comprei uma 22 pra mim, e eu nem treinei, nem sei como te acertei daqui. Foi Deus quem mirou por mim".
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A décima segunda canção, "Ford", fala sobre um sequestro, que acaba ocasionando um acidente de carro. Nesta canção, gosto muito da forma com a qual o "marginal" é descrito, um tipo de comediante nato, que nunca perde o bom-humor. "Não sinto a minha perna eu só sinto o ar, e é tão bom poder respirar. Eu nunca pensei que eu pudesse gostar, e que eu pudesse estar a sós com você. Eu preciso saber quem é você! Desculpe o punhal, é meu jeito de abordar!".
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A penúltima música, "Saltos Ornamentais Árabes Para Treinamento de Atiradores Americanos, é uma bela canção, a começar pelo título. Bom, sempre admirei a forma com a qual o Violins tratou a violência, isto é, a forma com a qual eles transformam-na em algo notório. "Veja os corpos pulando no ar; então atire no primeiro que olhar." E, mais a frente, a forma com a qual o "Atirador" trata a si proprio, vangloriando-se: "Dos atiradores de Elite eu sou o primeiro lugar, e eles vem me perguntar como faço pra acertar os homens que pulam de lado; e eu não sei - é talento inato!".
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A última faixa deste maravilhoso album, "Manicômio", fala sobre a crise de um jovem que vem sofrendo com a delinquencia (ou não).
"Então a porta se abriu e alguém me pediu pra ficar calmo. 'Ficar calmo? Quem é louco aqui?' - falei pra distrair e ninguém quis sorrir..."
Enfim, "TRIBUNAL SURDO", é um disco clássico, aquela obra-máxima, que ficará atualizada por anos, séculos, milênios, pois a violência, que é seu maior componente, jamais será apagada.
Prometo (a mim mesmo) que em breve escreverei sobre "Aurora Prisma", "A Redenção dos Corpos" e "Grandes Infiéis".
E aqui, http://www.myspace.com/violinsbr está tudo, ou quase tudo, sobre uma das melhores bandas do cenário nacional.
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